domingo, 16 de novembro de 2008

Reflexões novembrinas

Marcus Neves

Vivemos no mês de outubro o processo eleitoral mais pacífico e elegante desde que Estácio de Sá fundou esta “mui nobre e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”. O carioca – assim entendido todo aquele que habita nestas terras e não apenas o que aqui nasceu – deu a todo o país um exemplo de educação cívica. Não houve baixarias graves (exceto um folheto apócrifo aqui, outro ali), não houve sujeira nas ruas, enfim, um comportamento modelar, por parte dos candidatos e correligionários.
Consagrado o vencedor, Eduardo Paes, teve início o processo de escolha dos principais auxiliares. E aí, o primeiro registro de desafinações na orquestra do novo maestro. Candidata derrotada no primeiro turno, a médica Jandira Feghali, deputada federal do PCdoB-RJ, incansável e respeitada batalhadora pela melhoria dos serviços de saúde para a população, especialmente a de baixa renda, é anunciada como a próxima secretária de Cultura do município.
Ficou claro que o convite do prefeito eleito para que a nobre deputada viesse a ocupar a área da Cultura não passou de um mimo para a dra. Feghali, que anunciou seu apoio à candidatura de Paes logo que terminou o primeiro turno, no qual foi derrotada. O comportamento da nobre deputada, ao aceitar o mimo de Paes, demonstra aos olhos de todos nós, eleitores e cidadãos do Rio de Janeiro, sua clara preocupação em obter uma sinecura no governo municipal, tal qual a foca que recebe a sardinha do treinador, após fazer mais uma gracinha no circo. E o eleito Paes, também aos nossos olhos perplexos, demonstra apenas que está jogando a sardinha para a foca. Sim, porque se fosse diferente teria convidado a dra. Feghali para a Secretaria de Saúde, onde ela poderia demonstrar toda sua experiência como médica, buscando prover os munícipes de serviços de qualidade. E não na Cultura. Onde aliás, já começou declarando que iria rever as Apacs, o que obrigou Paes a desmenti-la.
O risco da farta distribuição de sardinhas para as diversas focas que já ocupam ou irão ocupar cargos variados na gestão Eduardo Paes, a partir de 1 de janeiro, está contido no preceito, conhecido como “O Princípio do Peter”, formulado pelo educador americano Laurence J. Peter, segundo o qual, “em qualquer organização hierárquica, cada integrante tende a crescer até seu nível de incompetência, de tal forma que ao longo do tempo, cada posto será ocupado por alguém incompetente para aquelas funções e todo o trabalho será realizado por aqueles que ainda não chegaram ao nível de incompetência”.
No plano federal, onde o Princípio do Peter pode ser mais bem compreendido, o companheiro de Garanhuns que ocupa o principal gabinete do Palácio do Planalto, continua vendo paisagens onde só cai tempestade. Assessorado por il genovese e outros lentes da ciência econômica, rotulou de marolinha a tsunami que varreu do mapa dos Estados Unidos algumas das mais conhecidas instituições financeiras locais. Afinal, nós e o resto do mundo é que estamos vendo chifres na cabeça dos cavalos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008